Mundo do Plástico

O Plástico na História
    Essa verdadeira revolução – a criação de novas matérias-primas – filha tão legítima da Revolução Tecnológica, não detonou tão revolucionariamente como se poderia supor. Ao contrário, principiou timidamente e caminhou passo a passo, às vezes retrocedendo, até o instante em que, de fato, pôde eclodir e, aí, sim, adquiriu caráter revolucionário.

    Até meados do século XIX, existia uma separação intransponível entre a natureza orgânica e a inorgânica. As leis gerais da energia e, até certo ponto, o princípio da evolução de Darwin, começaram a unificar ambos os reinos aos olhos dos estudiosos. Em 1828, Friedrich Woehler, eminente mestre de Gotingue, conseguiu efetivamente, dispensando rins de animais, obter uréia, partindo de matéria inorgânicas. Tal descoberta, pelo menos em teoria, pôs por terra, definitivamente, o divórcio até então existente entre os corpos vivos e os minerais.

    Mas as comunicações não eram fáceis como as de hoje, não reinava ainda uma mentalidade científica imune aos preconceitos e, principalmente, não existiam laboratórios de pesquisa, nem o instrumental adequado, nem métodos, nem muito menos uma visão bastante lúcida dos fenômenos químicos e físicos. O que existia era alguma pesquisa nas universidades (Alemanha, França e Inglaterra), mas muitas descobertas se perderam, ou não foram entendidas, ou então demoraram a vir a público, permanecendo como simples curiosidade. Para que serve isto, afinal?

    Um exemplo. Quando, segundo o Livro do Êxodo, Moisés tirou os judeus do Egito e levou-os para o deserto, faltou alimento. Mas, certa manhã, apareceu sobre as plantas e o solo algo parecido ao orvalho e que se podia colher e comer antes que o sol o derretesse. Era o “maná” – “o pão que o senhor vos deu para comer” – na explicação de Moisés ao seu povo.

    Que coisa era esse maná tão mencionado na tradição mediterrânea, onde há traços vivos da passagem do árabe? – quis saber, em 1806, o químico francês Joseph Louis Proust, então a serviço do rei Carlos IV da Espanha. Pesquisou e descobriu que 60% do maná, uma goma natural, um composto, consistem em álcool (manitol), branco e cristalino, levemente adocicado ao paladar e solúvel na água.

    O maná ainda hoje continua a ser colhido nos desertos da Arábia e, sintetizado, figura em xaropes e laxativos. Mas, naquele distante 1806, serviu apenas para dar maior renome a Proust, sem nenhuma conseqüência para a economia espanhola nem para a ciência em geral. Dois séculos antes, Proust teria pago essa heresia com a morte numa fogueira da Inquisição.

    Dadas essas condições é que se registram tantos “achados” casuais. O pesquisador, procurando um resultado, dava com outro, às vezes de maior valor, e desistia. Só a pesquisa sistemática, levada a cabo por cérebros privilegiados ou temperamentos muito teimosos é que permitiu, com o tempo, já na última década do século IXX e na primeira do século XX, abrir caminho para a comunhão da física, da química e da matemática, cujas fronteiras entre si já não são bastante definidas, e que juntas formam o fundamento de todas as outras ciências naturais.

    Foi, por exemplo, o que aconteceu com o precoce alemãozinho Adolf von Baeyer que, aos 13 anos de idade, em 1848, realizando uma tarefa a pedido do seu mestre de química em Heidelbergue, apanhou uma mancheia de anil natural e, muito simplesmente, separou dele o seu ingrediente corante ativo, a indigotina. Nem por isso mereceu elogios. Só 22 anos mais tarde, Baeyer, superando-se, realizou uma síntese do complexo pó azul, extraindo-o do alcatrão. Mas foi preciso esperar até 1897 para que a sua síntese do índigo entrasse na luta dos corantes travada entre a Alemanha e a Inglaterra.

    Friedrich Woehler e m ais alguns poucos homens foram fundamentais para chegarmos à compreensão dos fenômenos físico-qímicos. Um deles é outro alemão, Emil Fischer, que viveu entre 1852 e 1919. Ocupou a cadeira de química em várias universidades de sua pátria e, em Berlim, já no fim do século, como diretor do Instituto de Química, criou uma famosa escola de pesquisadores. Fischer é um dos maiores nomes da química orgânica sintética, pois não apenas formou toda uma geração de pesquisadores, como ainda realizou importantes trabalhos sobre corantes e compostos do grupo uréico, dedicando-se também à síntese de açúcares, proteínas, ácidos, matérias tanantes, graxas e fermentos. Foi um dos pioneiros da química dos ésteres. Prêmio Nobel de Química em 1902. Observe-se que o Nobel foi criado em 1901 e já na segunda vez em que foi atribuído, distinguiu um dos pioneiros do plástico.

    O grande químico francês Marcellin Berthelot, professor do Colégio de França e que chegou a senador, ministro da Instrução Pública e do Exterior, consagrou boa parte da sua vida, nos últimos trinta anos do século IXX, a pesquisas de química orgânica, detendo-se particularmente no estudo dos ésteres e da reprodução, em laboratório, dos compostos químicos existentes nos seres vivos. Berthelot realizou grande número de sínteses, como as do álcool, metano e acetileno, e inventou vários aparelhos, um dos quais, o calorímetro de precisão, foi na sua espécie um dos primeiros a figurar no instrumental da nova tecnologia que surgia. Berthelot veio por isso a ser chamado o pai da termo-química – a parte da química que considera o calor o fator integrante das reações.

    Mas ainda se estava em pleno reino do empirismo. Já se produzira um material sintético, o celulóide, não se sabendo, porém, exatamente, do que e como ele se formara. Somente mais tarde, com os misteriosos raios X é que se sairia da atmosfera do mistério para a compreensão do fenômeno.




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